#28 FEBRE AMARELA: consequências e prevenção

                           Fonte: encurtador.com.br/dpryR

A espécie de mosquito Aedes aegypti (Figura 1) é um conhecido “antagonista” de várias regiões no Brasil. Com um ciclo de cerca de 30 dias, o Aedes aegypti pode passar facilmente despercebido por ambientes urbanos devido a sua coloração escura e asas, tendo como única característica marcante as listras brancas presentes ao longo do corpo. Além da camuflagem natural, a picada do mosquito é indolor, pois sua saliva possui uma substancia analgésica, tornando o contagio de suas patologias ainda mais silencioso e perigoso. A espécie é também responsável pela transmissão de diferentes doenças virais e infecciosas, como a dengue, o zika vírus, e outras enfermidades (SESES, 2018).

Figura 1: Mosquito Aedes aegypti.

Fonte: https://goo.gl/85YJJ2

No entanto, nos últimos anos (Figura 2), outra patologia vigorosamente associada ao Aedes aegypti foi a doença conhecida como Febre Amarela. A febre amarela é uma doença infecciosa endêmica de regiões das Américas e do continente Africano. Transmitido pela picada de mosquitos da família Culicidae (família esta que inclui o Aedes aegypti), o letal agente viral apresenta em sua forma clássica febre hemorrágica, batizando assim, a perigosa doença (Vasconcelos, 2003).

Figura 2: Gráfico relatando a ocorrência de febre amarela no Brasil, de 1980 até 2017.

                              Fonte: https://goo.gl/pGz4qB

O continente africano é responsável pela maioria dos casos de febre amarela notificados à Organização Mundial de Saúde. Até junho de 2016, mais de 3500 casos foram relatados na Angola, caracterizando um surto da doença neste país. Neste mesmo ano, sete outros países, incluindo o Brasil, relataram surtos e casos esporádicos de febre amarela em diferentes regiões (WHO, 2016). Um fenômeno importante a ser destacado, relacionando os surtos esporádicos no Brasil, é que recentes ações de desmatamentos (como queimadas) em áreas endêmicas, as espécies silvestres do mosquito transmissor são restritas a uma área menor, promovendo uma maior circulação de agentes infecciosos e consequentemente aumentando o contagio da doença. Além de interferir no ciclo silvestre, essas queimadas podem promover a migração destes insetos para ambientes urbanos, acentuando também a circulação de insetos infectados no ciclo urbano da doença (STEVANIM, 2017).

Os ciclos de vida do vírus transmissor da febre amarela apresenta duas formas: O silvestre e o urbano. No ciclo de vida silvestre, as principais vítimas são os primatas presentes na nossa fauna, sendo que neste caso, humanos são infectados por acidente. No ciclo urbano no entanto, o principal portador do vírus são os humanos (STEVANIM, 2017). Os sintomas da febre amarela são variados: febre alta, calafrios, cansaço, dor de cabeça, dor muscular, náuseas e vômitos, que se não tratados podem levar a insuficiência hepática e renal. A prevenção contra a doença consiste no ato de impossibilitar a disseminação do vetor viral, o Aedes aegypti (FIOCRUZ, 2017). Além disso, é recomendado às populações de área de risco (Figura 3) que recebam a vacina contra o vírus.

 Figura 3: Mapa das áreas de risco.

Fonte: https://goo.gl/BD1f24

A maneira mais eficaz de evitar a febre amarela é através da vacinação. A vacina, aplicada na forma de uma injeção subcutânea, é elaborada com o vírus vivo modificado e possui um índice de imunogenicidade alto (maior que 97%). É indicada somente a moradores ou viajantes das áreas de recomendação, sendo que pessoas que vivem permanentemente nestes locais devem tomar duas doses da vacina ao longo da vida. A aplicação dobrada não tem relação com a eficiência da vacina, e sim com a duração da mesma (SBI, 2017).

No entanto, devido a escassez da vacina, muitas áreas de risco estão adotando uma dose fracionada da vacina como medida de prevenção temporária. A dose fracionada consiste na aplicação de uma dose menor do que a tradicional, onde cinco doses da vacina comum podem imunizar até 25 pessoas, adotando este método. Novamente, a diferença entre as doses não se aplica à eficiência da vacina, e sim a sua duração: Uma dose fracionada da vacina só rende imunidade por até 8 anos. É valido ressaltar que este método já foi adotado por outros países em períodos de surto de febre amarela, sendo que pelo menos 98% dos acometidos pela dose fracionada desenvolveram imunidade contra a doença (Ahuka-Mundeke, 2018).

Existem ainda resultados contraditórios em relação a eficácia e efeitos colaterais da vacina. Há relatos de estudos brasileiros recentes demonstrando a diminuição da resposta imunológica quando esta vacina é aplicada em conjunto com a vacina de prevenção de sarampo-rubéola-caxumba, conhecida como “tríplice viral” (SBI, 2017).

 Figura 4: Vacina da febre amarela

                            Fonte: https://goo.gl/SjrXon

No entanto, os humanos não são as únicas vítimas do mosquito Aedes. Homo sapiens só é a espécie preferida para obtenção de alimento, mas primatas (Figura 5) também podem ser alvos do vetor, fato que tem colocado muitas espécies endêmicas de nossa fauna em risco.

Figura 5: Mico-leão dourado, uma das espécies ameaçadas.

Fonte: https://goo.gl/TA16jr

Os primatas são altamente suscetíveis ao vírus da febre amarela, sendo transmitido através do ciclo silvestre das espécies de mosquitos que carregam o vírus. O tempo de vida do vírus nestes animais é bastante curto em comparação com o dos humanos, pois estes tendem a sucumbir a morte mais rapidamente (SBP, 2017).

É um consenso entre primatologistas que os macacos não estão relacionados com a disseminação do vírus pelo território brasileiro. Pelo contrário, por sucumbirem rapidamente a doença, a morte de macacos silvestres serve como “aviso” da presença da doença em um local especifico, podendo servir de ajuda para classificação de áreas de risco (SBP, 2017).

Mesmo assim, devido a divulgação de falsas informações de que estes animais podem transmitir a doença para humanos, iniciou-se uma caça desenfreada em alguns estados brasileiros com o objetivo de matar e envenenar os primatas locais. Nos primeiros 25 dias do ano de 2018, foram registradas 132 mortes de primatas no estado do Rio de Janeiro. Em janeiro de 2017 foram registradas 7 mortes de macacos no estado, mas depois da confirmação do primeiro caso de febre amarela no mês de março, o número subiu para 90 (EL PAÍS, 2018). Este é mais um fator além da febre amarela que coloca nossa diversidade de espécies primatas em risco.

Embora a febre amarela seja um risco letal, ela pode ser facilmente contornada com medidas de conscientização e educação, de modo que em meio a essa situação, nossa maior arma para erradicar essa doença do nosso país pode ser a informação.

 

Referências

AEDES AEGYPTI, Secretaria de Estado de Saúde. Governo do Estado do Espirito Santo, 2018. Disponível em: http://mosquito.saude.es.gov.br/aedes-aedypti

Ahuka-Mundeke S. Immunogenicity of Fractional-Dose Vaccine during a Yellow Fever Outbreak — Preliminary Report. The New England Journal of Medicine, 2018.

FEBRE AMARELA – INFORMATIVO PARA PROFISSIONAIS DE SAÚDE , Sociedade Brasileira de Infectologia. 2017. Disponível em: https://sbim.org.br/images/files/sbi-famarela-saude.pdf

Febre Amarela: sintomas, transmissão, prevenção, FIOCRUZ. Manguinhos, Rio de Janeiro, 2014. Disponível em: https://www.bio.fiocruz.br/index.php/febre-amarela-sintomas-transmissao-e-prevencao

“Febre amarela desata caça bárbara contra macacos no Rio” El País, 2018. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/25/politica/1516892592_161900.html

O surto de febre amarela no Brasil e seus impactos sobre a população de macacos, Sociedade Brasileira de Primatologia, 2017. Disponível em: http://sbprimatologia.org.br/o-surto-de-febre-amarela-no-brasil-e-seus-impactos-sobre-populacao-de-macacos/

Stevanim, L. Febre Presente. Revista RADIS, 2017.

Vasconcelos, P. Febre Amarela. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, 2003.

Yellow Fever, Situation Report. World Health Organization, 2016. Disponível em: http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/246156/1/yellowfeversitrep30Jun16-eng.pdf?ua=1

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Edição Março/2018                        By: Antonio Sodré, Cleiton Peña & Ivan Sobrinho.

 

 

 

 

 

 

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