#29 Biossegurança nos Laboratórios Universitários: à luz da contemporaneidade.

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A Biossegurança é definida como um conjunto de ações direcionadas à prevenção, minimização e/ou eliminação dos riscos que são inerentes as ocupações em pesquisas, ensino e produção (TEIXEIRA & VALLE, 2010).

Rotineiramente os laboratórios de atividades de ensino, pesquisa e extensão relacionadas à graduação e pós-graduação lidam constantemente com atividades que relacionam pessoas, equipamentos, reagentes, soluções, amostras biológicas e por fim, os resíduos gerados por estas atividades (figura 1). Dessa forma, pode haver contato dos indivíduos aos riscos inerentes a tais trabalhos, a saber: riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos, psicossociais e de acidentes. Portanto, faz-se necessário o conhecimento em biossegurança buscando-se minimizar/anular os riscos na rotina laboratorial (SANGIONI et al., 2013).

 

Figura 1: Manutenção de resíduos gerados num laboratório

Fonte: https://goo.gl/ErQGh5

No vocabulário da biossegurança, o risco refere-se à chance de acontecimento de um dano. Explicitando a classificação supracitada, os riscos físicos constituem ruído acima de 115 decibéis, frio ou calor excessivos, pressões anormais; os riscos químicos, relacionados a compostos orgânicos e inorgânicos; os riscos biológicos, intrínsecos a microrganismos, vetores e material biológico capazes de causar algum dano à saúde do homem, animal ou meio ambiente. Há, também, os riscos psicossociais (estresse e perda da produtividade) e os riscos ergonômicos (esforço físico excessivo e posturas inadequadas) (SALHA, 2014).

Há diversas medidas de segurança que minimizam ou anulam os riscos existentes em laboratório. Contudo, mesmo que individualmente se tenha uma perfeita práxis em biossegurança, sabe-se que diversos acidentes ocorrem através de erros de atividades executadas por estagiários sem orientação e capacitação. Isso permite fazer outra constatação: na maioria das vezes, a exposição a riscos ocorrentes em laboratório não se dá pela deficiência nas tecnologias disponíveis para redução de tais riscos, mas no comportamento dos indivíduos que lidam com a rotina laboratorial (SANTOS, 2014).

Todavia, a ética, a moral e a responsabilidade social são valores pouco mencionados quando se trata de boas práticas de biossegurança, apesar da sua grande importância. Sabe-se que muitos profissionais trabalham em desconformidade com as respectivas normas vigentes de biossegurança, mesmo portando a consciência de tal fato. São práticas culturais, enraizadas como maus costumes, passadas hierarquicamente, inclusive para alunos. Quando isso é feito, o trabalhador assume o risco, que pode atingir a si, aos colegas de trabalho e a todo o seu círculo social e, em casos mais graves, a sociedade. Atualmente, não é incomum encontrar más práticas laboratoriais de biossegurança (figura 2), principalmente em instituições mais antigas, onde precisa haver uma árdua transição de valores relacionados às condutas necessárias (CAVALLI et al., 2015).

 

Figura 2: Notícia de março de 2018, sobre lixo hospitalar irregular em Hospital de Penedo – AL.

Fonte: https://goo.gl/Sd9MHb

No dia-a-dia dos laboratórios em universidades, é muito comum, principalmente por parte dos graduandos, a falta de conhecimento sobre biossegurança. Num estudo conduzido por Tomo e colaboradores (2014), com 374 alunos regularmente matriculados no curso de Odontologia da Unicastelo de Fernandópolis – SP, cursando do primeiro ao último ano da graduação, 57,19% não tinham conhecimento sobre a Norma Regulamentadora NR-32, que trata da segurança ocupacional do trabalhador. Apenas uma pequena parte dos alunos (29,52%) afirmou saber o que é uma doença ocupacional. Dentre os alunos participantes, 47,39% afirmaram não saber o significado da sigla EPI (equipamento de proteção individual), além de 25,81% conhecerem algum aluno ou profissional que tenha sofrido algum tipo de acidente. Um número considerável de alunos (42,06%) afirmou não saber como proceder caso sofra algum acidente.

Já num estudo realizado por Salha (2014), feito com 300 alunos (figura 3) do curso de farmácia da Universidade Federal de Goiás, 246 (82%) participantes declararam conhecer a NR32. Apenas 56 (18,7%) receberam informação adequada sobre acidentes com material biológico, sendo que 133 (44,3%) reconhecem o risco biológico como o risco ocupacional frequente nas disciplinas e estágios do curso. Não houve ampliação no conhecimento a respeito da biossegurança quando se analisa a estatística no decorrer dos períodos do curso. Os dados revelaram haver pouca discussão sobre biossegurança durante a formação dos graduandos.

Figura 3: Graduandos em aula prática de laboratório

Fonte: https://goo.gl/DNxczo

Diante destes problemas relacionados aos graduandos, o IMS percebeu a necessidade de intervenção neste quesito. A instituição realizará um curso de capacitação de biossegurança em laboratórios para os calouros recém-chegados do período 2018.1 e a cada semestres, todos os alunos novos receberão essa capacitação. O curso pretende abordar questões do cotidiano de aulas práticas em laboratório, desde a prevenção de riscos e a geração e descarte de resíduos até ações em caso de emergência. Pretende-se, por meio desta capacitação, reduzir os problemas supracitados atrelados ao desconhecimento dos graduandos em relação as boas práticas laboratoriais vinculadas à biossegurança.

É notória a seriedade e relevância presente nos riscos possíveis no dia-a-dia das atividades laboratoriais. Sendo assim, é imprescindível que sejam direcionadas ações e esforços para o máximo cumprimento, possível, das normas que garantem a biossegurança, pois a mesma aumenta as possibilidades de uma saúde intacta e da longevidade das pessoas que ali realizam seus trabalhos. Por fim, ele (o conhecimento a respeito da biossegurança) garante a proteção não somente dos indivíduos em laboratório, mas também da sociedade e do meio ambiente. 

Referências

CAVALLI, Lisandra Souto; BRITO, Kelly Cristina Tagliari; BRITO, Benito Guimarães. Existe relação entre ética e biossegurança ocupacional? Revista Contraponto, v. 2, n. 3, 2015.

SALHA, Leila Abou. Biossegurança-conhecimento de graduandos em farmácia. 2014. Disponível em: <http://repositorio.bc.ufg.br/tede/handle/tde/3030>. Acesso em: 29/03/18.

SANGIONI, Luis Antônio; PEREIRA, Daniela Isabel Brayer; VOGEL, Fernanda Silveira Flores; BOTTON, Sônia de Avila. Princípios de biossegurança aplicados aos laboratórios de ensino universitário de microbiologia e parasitologia. Ciência Rural, v. 43, n. 1, 2013.

SANTOS, Ana Taniely Prestes. Protocolo para registros de acidentes em laboratórios de ensino e pesquisa. 2014. Disponível em: < https://dspace.ufgd.edu.br/jspui/handle/123456789/533>. Acesso em: 29/03/18.

TEIXEIRA, Pedro; VALLE, Sílvio. Biossegurança: uma abordagem multidisciplinar. 2.ed. Rio de Janeiro, RJ: FIOCRUZ, 2010. 442p.

TOMO, Saygo; BOER, Nagib Pezati; CORREIA, Thiago Medeiros; SILVA, Wagner Rafael; LIMA, Daniela Pereira; CUNHA-CORREIA, Adriana Sales. Conhecimento de graduandos em Odontologia a respeito das normas de biossegurança. ARCHIVES OF HEALTH INVESTIGATION, v. 3, n. 4, 2014.

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Edição ABRIL/2018                 By: Antonio Sodré, Cleiton Peña & Ivan Sobrinho

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