#33 Arborização urbana

Entende-se por arborização urbana a ocupação de quaisquer locais por espécies vegetais de porte arbóreo, sejam eles públicos ou privados, desde que incluídos em área urbana (SANTOS, 1997). Porém, este conceito diz respeito não somente a árvores originadas de plantio artificial, mas também à vegetação residual de mata nativa preservada em zona urbana (ARAÚJO, 2012).

As práticas relacionadas à arborização possuem duas origens independentes: o Egito é considerado berço da jardinagem ocidental, e realizava tal prática no intuito de amenizar o calor nas habitações; enquanto no oriente, a China detém este posto, inicialmente caracterizada pelos jardins destinados a cultos religiosos (LOBODA e DE ANGELIS, 2005).

A influência egípcia atravessou países como Grécia, Roma, e finalmente chegou à Europa no século XV (RESENDE, 2011). No Brasil, a arborização urbana é considerada recente, com início há pouco mais de 120 anos no estado do Rio de Janeiro, ainda no reinado de D. Pedro I (PMSBC, 2015).

Desde então, a demanda pela inclusão da arborização urbana no planejamento das cidades se faz cada vez maior, uma vez que o seu crescimento populacional sem planejamento está ligado à ampla modificação da paisagem, incluindo o desmatamento de árvores, reduzindo a qualidade de vida do homem (CABRAL et al., 2013).

O processo de arborização das cidades (figura 1) traz inúmeros benefícios à relação homem-ambiente, dentre eles o bem estar psicológico ao homem, melhoria da aparência dos ambientes, sombras para pessoas e veículos, diminuição da poluição sonora, redução da erosão causada pelas chuvas, manutenção do microclima e da incidência de raios solares e, por fim, a preservação da biodiversidade (PIVETTA e FILHO, 2002).

Figura 1 – Rua arborizada de uma cidade.

Fonte: https://goo.gl/SKthUk

Porém, existem alguns cuidados a serem tomados ao se realizar este trabalho, pois ele não deve ser feito ao acaso. Os governos precisam oferecer uma correta orientação quanto ao planejamento tanto da arborização em si (local, formas de plantio, manutenção e espécies escolhidas) em parques, reservas, canteiros e calçadas, como de redes elétricas, hídricas e de esgoto que, quando mal planejadas, podem inviabilizar o plantio de novas árvores (CABRAL et al., 2012).

A escolha das espécies a serem plantadas é importante, pois espécies exóticas podem causar sérios problemas. Pela falta de espécies competidoras, podem facilmente invadir ambientes naturais e causar, dentre outros problemas, a perda de biodiversidade (SAMPAIO e SCHMIDT, 2013). As espécies invasoras se igualam à mudanças climáticas no quesito de causador de perda da biodiversidade, perdendo apenas para a ação direta nos habitats (IUCN, 2000).

Para se ter uma dimensão do problema, um estudo realizado na cidade de Picos-PI por DA SILVA e col. (2018) revelou que 51% das espécies de plantas de setores públicos da cidade eram exóticas, enquanto apenas os outros 49% eram espécies nativas da região. Já em um levantamento realizado por Damaceno e col. (2018), no extremo oposto do Brasil, no município de Mamborê-PR, revelou que um quarto das espécies de árvores em locais públicos se tratavam de espécies exóticas (figura 2). Os dados podem indicar este problema como generalizado em todo o país.

Figura 2. Acácia (Acacia saligna), árvore originária da Austrália hoje muito comum no Brasil.

Fonte: https://goo.gl/85Am9U

Desde que realizado um planejamento conjunto de governos, companhias elétricas, hídricas e de saneamento, a arborização urbana tende a trazer somente benefícios. Como exemplo entre as grandes cidades do Brasil, podemos destacar Campinas – SP e Belo Horizonte – MG, que ocupam a posição de 2ª e 3ª grandes cidades mais arborizadas do país, respectivamente (IBGE, 2010), e também estão entre as 20 grandes cidades com melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país (EXAME, 2017).

Principalmente para estas grandes cidades, que costumam concentrar alguma arborização em parques, estes setores funcionam como um “termostato” para a cidade, pois melhoram a retenção de umidade e, consequentemente, a manutenção da temperatura, evitando as ilhas de calor, algo que poderia ser muito frequente pela grande quantidade e densidade de concreto nas metrópoles, além de representar uma área de lazer a toda a população (G1, 2018).

Há também cidades com projetos promissores em andamento, como a cidade de São Paulo, na qual está sendo colocado em prática um projeto do botânico e paisagista Ricardo Cardim que visa não só o bem estar humano, mas também a restauração de parte da biodiversidade da Mata Atlântica. O projeto consiste nas intituladas Florestas de Bolso (figura 3), que nada mais são do que o reestabelecimento gradual da flora de mata nativa do bioma Mata Atlântica em pequenas porções, utilizando terrenos ou canteiros abandonados, degradados ou doados. O uso de plantas de mata nativa facilita o seu crescimento com pouca manutenção, pois é adaptada ao clima local, ao mesmo tempo em que reestabelece consigo a fauna nativa e, de quebra, oferece os mesmos benefícios de um parque verde convencional (REVISTA PLANETA, 2018).

Figura 3. Uma das Florestas de Bolso do projeto de Ricardo Cardim na cidade de São Paulo – SP.

Fonte: https://goo.gl/iAUgnK

Na cidade de Nova York, no governo do ex-presidente Barack Obama foi feito um levantamento que levou a cidade a fazer um grande investimento em arborização: descobriu-se que a cada US$1 investido em plantio arbóreo, US$2 eram economizados em saúde (G1, 2018). Além disso, as quase 685 mil árvores hoje existentes na megalópole podem reter 1 bilhão de galões de água de chuvas e tempestades, representando uma economia de US$10,8 milhões em reparação de danos fluviais e problemas causados por inundações (LABGIS, 2016).

Neste contexto, o Instituto Multidisciplinar em Saúde (IMS) conta com o planejamento de áreas de arborização por todo o campus, que possui uma ampla diversidade de espécies arbóreas (figura 4) que garantem a manutenção do microclima, sombras em áreas de convivência e a estética do ambiente. A maioria das espécies de plantas, inclusive as árvores, são identificadas, garantindo melhor controle das espécies utilizadas na instituição.

Figura 4. Áreas verdes do IMS com diversidade de espécies arbóreas.

Ao contrário do que há no imaginário popular, pode-se perceber que a importância da arborização de cidades vai além da estética. Arborizar um local tem a ver com o fato de que os humanos dependem do meio ambiente para viver, e as interações diretas com parques, reservas e ruas arborizadas fazem perceber tal fato. Fica clara a necessidade de maior inclusão desta pauta nos planejamentos dos governantes, pois a arborização possui efeitos diretos na saúde, economia e bem estar humano.

 

Referências
ARAÚJO, S. V. Conceitos de arborização urbana, 2012. Disponível em <https://www.webartigos.com/artigos/conceitos-de-arborizacao-urbana/99622/#ixzz5MOtQA0jX&gt;. Acesso em 26 jul. 18.

CABRAL, P. I. D.; PERÍCIA, A.; AMBIENTAL, G. Arborização urbana: problemas e benefícios. Especialize on-line, Goiania, v. 1, n. 6, p. 15, 2013.

DAMACENO, F. M., NETO, S. P., CARARD, R. F., DA CUNHA, C. C., DOS REIS, R. A., & CAXAMBU, M. G. Censo da arborização urbana do município de Mamborê, Paraná. SaBios-Revista de Saúde e Biologia, v. 12, n. 2, p. 10-19, 2018.

DA SILVA, L. S., OLIVEIRA, Y. R., DA SILVA, P. H., DE MENDONÇA PIMENTEL, R. M., & DE ABREU, M. C. Inventário das plantas arbustivo-arbóreas utilizadas na arborização urbana em praças públicas. Journal of Environmental Analysis and Progress, v. 3, n. 2, p. 241-249, 2018.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2010: Características urbanísticas do entorno dos domicílios. Disponível em <https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/entorno/default_entorno.shtm&gt;. Acesso em 26 jul. 2018.

IUCN – INTERNATIONAL UNION FOR CONSERVATION OF NATURE AND NATURAL RESOURCES. IUCN guidelines for the prevention of biodiversity loss caused by alien invasive species. Gland: IUCN, 2000. 25 p.

LABGIS – Núcleo de Geotecnologias da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Projeto mostra arborização das ruas da cidade de Nova York, 2016. Disponível em <https://www.labgis.uerj.br/noticias/projeto-mostra-arborizacao-das-ruas-da-cidade-de-nova-york&gt;.

LOBODA, C. R.; DE ANGELIS, B. L. D. Áreas verdes públicas urbanas: conceitos, usos e funções. Ambiência, v. 1, n. 1, p. 125-139, 2005.

PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO BERNARDO DO CAMPO (PSBC). Como teve início a arborização urbana no Brasil, 2015. Disponível em <http://www.saobernardo.sp.gov.br/home?p_p_id=101&p_p_lifecycle=0&p_p_state=maximized&p_p_mode=view&_101_urlTitle=como-teve-inicio-a-arborizacao-urbana-no&_101_struts_action=%2Fasset_publisher%2Fview_content&_101_type=content&_101_assetEntryId=513497&_101_returnToFullPageURL=%2Fhome&gt;. Acesso em 26 jul. 18.

RESENDE, O. M. Arborização urbana. Barbacena: Universidade Presidente Antonio Carlos, 2011.

REVISTA PLANETA. Florestas sob medida, 2018. Disponível em <https://www.revistaplaneta.com.br/florestas-sob-medida/>. Acesso em 26 jul. 2018.

SAMPAIO, A. B.; SCHMIDT, I. B. Espécies exóticas invasoras em unidades de conservação federais do Brasil. Biodiversidade Brasileira, Brasília, v. 3, n. 2, 32-49, 2013.

SANTOS, P. J. F. A PRECPÇÃO DOS MORADORES SOBRE A ARBORIZAÇÃO DE RONDONÓPOLIS-MT UFMT 1997. Monografia (Especialização em Educação Ambiental) – DEGEO/ICHS/ Universidade Federal de Mato Grosso, 1997.

 

 

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Edição: Agosto/2018   By: Antonio Sodré, Cleiton Peña e Ivan Sobrinho.

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