#35 Sono, rendimento acadêmico e qualidade de vida: uma análise das Instituições de Ensino Superior (IES) com ênfase no IMS.

Qualidade de vida e sono estão interligados de forma direta no ser humano. Existem funções muito importantes no organismo realizadas de forma eficiente somente enquanto o indivíduo dorme, como o fortalecimento do sistema imunológico, secreção e liberação de hormônios e fixação da memória. Entretanto, o modo de vida moderno com tempo escasso para repouso, além das patologias relacionadas ao sono, podem perturbar a realização destas atribuições (OLIVEIRA, 2012).

Conforme Hirshkowitz et al., (2015), muitos estudos confirmam que o ser humano, n aidade adulta, necessita, em média, de 8 horas de sono por noite. Assim, verifica-se que uma pessoa passa cerca de 4 meses de um ano, dormindo. Portanto, é fácil notar a importância de uma noite bem dormida, pois o descanso de uma boa noite de sono é diretamente relacionado com a saúde (Figura 1), motivação e aprendizagem. Embora se alterne entre a ausência de raciocínio lógico e fluxo de pensamentos diversos, este processo não é caracterizado como uma simples diminuição da atividade cerebral, e sim, como um estado de consciência diferente (LOPES et al., 2006).

Figura 1 – Liberação de hormônios relacionados ao sono no decorrer das horas.

Disponível em: https://goo.gl/YyxK7p

Apesar de o sono parecer visualmente simples, na verdade se trata de um processo bastante complexo, além de envolver, sistemicamente, o mecanismo fisiológico do nosso organismo. De forma simples, pode-se dividi-lo em 2 fases: a fase nREM ou não REM e aquela denominada REM, do inglês Rapid Eye Moviment (Movimento Rápido dos Olhos). Estas duas fases normalmente se alternam ao longo da noite, sendo a fase REM aquela na qual se encontra o sono profundo e onde acontecem os sonhos (INSTITUTO DO SONO, 2018).

Sabendo-se disto, o sono se mostra parte importante de qualquer rotina, mas principalmente daquelas onde há considerável esforço mental diário, como é o caso dos integrantes das comunidades de Instituições de Ensino Superior (IES). Assim, o conjunto de fatores envolvidos na qualidade e duração do sono são decisivos no bem estar pessoal e no rendimento acadêmico.

Um estudo realizado por Gomes (2006) avaliou estas variáveis em 1654 estudantes universitários. Dentre os resultados, verificou-se que durante a época das avaliações, os universitários passam por problemas de sono quanto à sua qualidade, quantidade de horas dormidas e insônia durante o dia (figura 2).

                           Figura 2 – Estudante dormindo durante a aula.

                              Disponivel em: https://goo.gl/ZcGPMy

Além disso, estudantes que apresentaram pior qualidade do sono relataram pior bem-estar diário. Em suma, estes dois conjuntos de fatores (qualidade do sono e qualidade de vida) são variáveis diretamente proporcionais: quanto mais acentuados são os problemas com o sono, maiores são os problemas de humor (cansaço, ansiedade, irritação e humor depressivo) e funcionamento cognitivo (atenção, motivação e eficiência).

Assim, mesmo os problemas subjetivos relacionados ao sono (satisfação pessoal) já podem indicar uma patologia de magnitude sistêmica no rendimento das IES. O trabalho de Carvalho (2013), realizado com 173 estudantes da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) detectou altos índices de indivíduos com má qualidade de sono e de sonolência durante o dia, tanto nas áreas de exatas como de saúde.

Se é possível ser assertivo ao demonstrar a relação entre qualidade do sono e rendimento acadêmico, quais seriam, então, as possíveis causas de uma noite mal dormida (Figura 3)? Diversos pontos podem ser percebidos além de características inerentes a cada indivíduo. Horários de sono sem rotina e altas demandas acadêmicas possuem relação com o fato, como se espera, porém o uso noturno de aparelhos eletrônicos perdurando por grande parte da noite (e nem sempre relacionado aos estudos) pode ser outro fator importante (CARVALHO, 2013).

                           Figura 3 – Representação de Insônia.

Disponivel em: https://goo.gl/uAefwY

Foi feita avaliação do sono de 701 estudantes universitários de Fortaleza – CE, dentre eles, 54% avaliaram a qualidade do seu sono como ruim no último mês; apenas 18,6% dormiram, em média, mais de sete horas no último mês; mecanismos de avaliação da eficiência do sono apontaram para 99% dos entrevistados como estando na pior faixa de avaliação deste quesito; 38,8% dos indivíduos se recolhem após a meia noite. Finalmente, quanto à disposição destes indivíduos, 44,2% apresentam problemas leves de disposição física e 32% têm este mesmo problema de forma razoável. Esta disposição diz respeito a estudo, trabalho, dirigir, lazer, etc (MOURA DE ARAÚJO et al., 2013).

Pesquisa semelhante foi reproduzida no Campus Anísio Teixeira. Por meio de uma enquete, 141 discentes, 21 docentes e 21 técnicos responderam acerca de hábitos e rotina de sono. Clique: Resultado da enquete sobre o sono .

Os principais resultados obtidos foram:

  • 64,5% dos indivíduos disseram dormir, em média, menos de 7 horas por noite;
  • 99,5% dos participantes (sempre ou às vezes) utilizam aparelhos eletrônicos (smartphone, tablet, televisão, notebook, etc.) até 1 hora antes de dormir, sendo que, destes, 88,5% sempre os utilizam (Figura 4);
  • 18,6% dos indivíduos demoram mais de 30 minutos para dormir;
  • 17,5% dos indivíduos sentem muita dificuldade para começar a dormir;
  • 42,1% dos indivíduos entram em sono profundo somente às vezes. 1,6% nunca entram em sono profundo;
  • 23,5% acordam mais de uma vez durante a noite;
  • 54,1% avaliam a qualidade do seu sono como regular e 8,2% avaliam como péssimo;
  • Apenas 1,6% nunca sentem sonolência durante o dia, sendo que 36,1% sempre a sentem e 62,3% às vezes a sentem;
  • 14,2% utilizam medicação para lidar com a insônia, sendo que, destes, 12,6% às utilizam às vezes e 1,6% sempre às utilizam.

Figura 4 – Porcentagem das pessoas entrevistadas do IMS que utilizam aparelhos eletrônicos (smartphone, tablet, televisão, notebook, etc.) até 1 hora antes de dormir.

À primeira vista, é notável a presença de distúrbios de sono na comunidade acadêmica. Mais da metade das pessoas que responderam à enquete afirmaram dormir menos que 7 horas por noite (Figura 5); um dado preocupante, pois por mais que existam pessoas que afirmam que conseguem ser produtivos com 4 ou 5 horas de sono por noite, existem estudos que afirmam exatamente o contrário. Segundo pesquisas, dormir 6 horas por noite por 10 dias seguidos causa o mesmo efeito em suas capacidades cognitivas do que passar uma noite inteira em claro. Pra quem dorme até 4 horas por noite, este efeito era visível no 3º dia (LEONARDI, 2018).

                       Figura 5 – Qualidade do sono dos entrevistados do IMS

Alarmantes 99,5% dos participantes da pesquisa afirmaram utilizar de forma frequente aparelhos que emitem luz direta sobre os olhos até 1 hora antes de dormirem. É importante notar que a luminosidade é contra-produtiva ao sono e o corpo possui uma necessidade fisiológica de escuridão parcial para um ciclo completo de sono. Este fator pode ser correlacionado com problemas de insônia e dificuldades para adormecer (CARBONARI, 2017).

Os dois primeiros dados extraídos da enquete possibilitam hipotetizar que as poucas horas destinadas ao repouso, além do uso de aparelhos celulares antes de dormir contribuem, consideravelmente, nas variáveis seguintes (tempo que demoram para dormir, dificuldade para começar a dormir, frequência em que entram em sono profundo, quantidade de vezes em que acordam durante a noite, autoavaliação do sono, sonolência durante o dia e uso de medicação para insônia). É óbvio que, para afirmá-lo de forma categórica, seriam necessários estudos mais detalhados e criteriosos sobre os fatores supracitados.

Apenas 42,1% afirmaram entrar em sono profundo durante a noite, caracterizando uma rotina de sono incompleta e menos eficaz. Diante desses fatos, não é surpresa 99,4% dos entrevistados afirmarem sentir algum tipo de sonolência durante o dia. De forma geral, pode-se reconhecer no IMS um padrão já visto em muitos outros estudos em IES. A qualidade e quantidade de sono nesta instituição é passível de preocupação. Assim, confirma-se a necessidade de maior atenção ao tema, que pode facilmente passar despercebido devido à sua aparente importância secundária.

É inegável a necessidade de uma noite de sono sadia para os funcionamentos regulares do corpo e da mente. O cotidiano deste século, sempre apressado e estressante, exigiria mais do que nunca, hábitos de sono saudáveis, mas ao contrário disso, está sempre roubando nosso tempo e a qualidade do sono, ironicamente. Tal fato faz com que tenha-se rendimento aquém das capacidades individuais e haja uma sensação duradoura de cansaço, o que, por fim, leva o corpo a querer estar mais tempo na cama, tornando-se um círculo vicioso de insatisfação pessoal.

Assim, é preciso priorizar o sono como parte do planejamento diário. Criar uma rotina de sono fixa e bem estabelecida, em equilíbrio com os hábitos do dia-dia. Como é sabido, negligenciar a higiene do sono pode causar danos preocupantes e permanentes a saúde e ao aprendizado, e muitos hábitos contemporâneos podem somar a esses fatores. Por isso, rotinas como buscar dormir mais de 7 horas por noite, evitar poluição sonora e visual antes de adormecer, evitar estimulantes e posicionar-se de forma confortável ajudam num sono mais tranquilo e eficiente. Sua mente e seu corpo agradecem.

Quanto ao IMS, cabe a reflexão sobre os indícios de má qualidade do sono em considerável parte da amostra da comunidade Instiucional. Sugere-se a conscientização do problema de forma coletiva. Vale ressaltar que esforço, foco e assiduidade são muito importantes, mas existe um limite fisiológico para cada indivíduo. Quando este não é respeitado, corre-se o risco de comprometer parte do trabalho de todo um semestre ou ano, além de trazer sérias consequências a longo prazo. Saúde e educação de qualidade andam lado a lado.  Cuidar da saúde, assim como a dedicação acadêmica, é cuidar do bem-estar do indivíduo.

===========================================================================Referências

CARBONARI, P. “Adolescentes nunca dormiram tão pouco – e celular é o vilão”. Revista Superinteressante, 2017. Disponível em: <https://super.abril.com.br/saude/adolescentes-nunca-dormiram-tao-pouco-e-celular-e-o-vilao/>

CARVALHO, T. M. C. S., SILVA JUNIOR, I. I., SIQUEIRA, P. P. S., ALMEIDA, J. O., SOARES, A. F., & LIMA, A. M. J. Qualidade do sono e sonolência diurna entre

INSTITUTO DO SONO. Sono, 2018. Disponível em estudantes universitários de diferentes áreas. Rev neurociênc, v. 21, n. 3, p. 383-7, 2013.

GOMES, A. C. A. Sono, sucesso académico e bem-estar em estudantes universitários. Tese de Doutorado. Universidade de Aveiro, 2006.

HIRSHKOWITZ, M., WHITON, K., ALBERT, S. M., BRUNI, C. A. O., DONCARLOS, L., HAZEN, N., HERMAN, J., KATZ, E. S., KHEIRANDISH-GOZAL, L., NEUBAUER, D. N.,O’DONNEL. A. E., OHAYON, M., PEEVER, J., RAWDING, R., SACHDEVA, R. C., SETTERS, B., VITIELLO, M. V., WARE, J. C., HILLARD, P. J. A. National Sleep Foundation’s sleep time duration recommendations: methodology and results summary. Sleep Health: Journal of the National Sleep Foundation , Volume 1 , Issue 1 , 40 – 43, 2015.

INSTITUTO DO SONO. Sono, 2018. Disponível em <http://www.sono.org.br/sono/sono.php>.

LEONARDI, A. C. “Ficar bem com menos de 8 horas de sono é mito, diz estudo”. Revista Superinteressante, 2018. Disponível em: <https://super.abril.com.br/saude/ficar-bem-com-menos-de-8-horas-de-sono-e-mito-diz-estudo/>

LOPES, W. S., FAUSTINO, M. A., LEAL, A. B., & INOCENTE, N. J. Sono um fenômeno fisiológico. Resumos dos trabalhos apresentados no IX Encontro Latino Americano de Iniciação Científica e V Encontro Latino Americano de Pós-graduação, p. 3-6, 2006.

MOURA DE ARAÚJO, M. F., SOARES LIMA, A. C., PARENTE GARCIA ALENCAR, A. M., DE ARAÚJO, T. M., CARVALHÊDO FRAGOSO, L. V., & COELHO DAMASCENO, M. M. Avaliação da qualidade do sono de estudantes universitários de Fortaleza-CE. Texto & contexto enfermagem, v. 22, n. 2, 2013.

OLIVEIRA, J. V. A importância de dormir bem. Revista Espaço Aberto, 2012. Disponível em: <http://www.usp.br/espacoaberto/?materia=a-importancia-de-dormir-bem>

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Edição: Outubro/2018     By: Antonio Sodré; Cleiton Peña & Ivan Sobrinho.

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