#36 HÁBITOS ALIMENTARES DOS UNIVERSITÁRIOS: como podem influir na sua saúde?

É fato conhecido que a alimentação pode ter diversos efeitos na saúde e humor de uma pessoa, e nas décadas recentes, o Brasil vem passando por um período de transição nutricional evidente, tanto de forma positiva, com uma queda nos índices de desnutrição, como também negativa, com um aumento claro na taxa de obesidade. Tais fatos podem ser ligados à influência do crescimento da indústria alimentícia e suas consequências, como tendência a preferir alimentos muitas vezes processados, de baixo teor nutricional e altamente calóricos (LÓPEZ et al., 2006).

Uma evidência da expansão do consumo de industrializados foi uma mudança no estilo de vida e alimentação do brasileiro no início da década de 90. Houve crescimento notável no setor de importações de alimentos, caracterizado pela abertura do mercado. A importação de produtos alimentares industrializados cresceu surpreendentes 409% neste período, enquanto que outros setores de importação como o de preparações alimentícias diversas (que obteve um crescimento de 1193%), e o de leite e derivados (que cresceu 970%) também tiveram um crescimento exponencial (GARCIA, 2003).

As relações diretas entre uma dieta adequada e a saúde, tanto física quanto mental, são vastamente observadas e documentadas. Hoje não se há dúvidas que uma alimentação ideal tem importância fundamental no tratamento e prevenção de enfermidades (RECINE e RADAELLI, 2009).

Num estudo de revisão sistemática utilizando análise crítica sobre o Índice de Alimentação Sustentável (IAS) conduzido por Moreira e col. (2015), observou-se que 41% dos estudos conduzidos presenciou baixo consumo de vegetais, frutas, leite e seus derivados, enquanto que destacaram-se como produtos de maior consumo os grupos de carnes, ovos, colesterol, gordura total e gordura saturada.

Os princípios de uma alimentação saudável se resumem em alguns pontos importantes. Primeiro, é necessário uma variedade de tipos de alimentos, sempre buscando diversificar os hábitos alimentares. Também é importante ter moderação ao se alimentar, se atentando às necessidades fisiológicas e a quantidade de alimento. Equilíbrio também é um importante fator a ser levado em consideração, buscando sempre o velho ditado de “comer de tudo um pouco”.

De forma a facilitar a busca de uma alimentação adequada, existe uma consolidada pirâmide alimentar (Figura 1) que podemos tomar como auxiliar para uma dieta diversificada e saudável. Sua base formada principalmente de massas, pães, cereais e vegetais, ou seja, alimentos ideais para o fornecimento de energia ao longo do dia, enquanto que proteínas e açúcares são recomendados em quantidades menores, ideais para a manutenção das necessidades fisiológicas do organismo (RECINE e RADAELLI, 2009).

Figura 01: Pirâmide alimentar, que ilustra o tipo de alimento a ser consumido e sua proporção numa dieta balanceada.

Fonte: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/alimentacao_saudavel.pdf

Neste contexto, há vários aspectos que podem inviabilizar o planejamento e a realização de uma boa alimentação. Um fator importante a ser considerado é a rotina dos estudantes de universidades. Sabe-se que o ambiente universitário pode ser muitas vezes desgastante. A correria entre as aulas, atividades e estudos deixa pouco tempo para outras atividades. Isto, somado ao fato de que muitos estudantes são jovens que saíram de casa recentemente, sem muitas habilidades domésticas, resulta na busca de uma alimentação rápida e de fácil acesso. Muitas vezes, isso acaba resultando em alternativas extremamente calóricas, com pouco valor nutricional e muito sódio, que, embora a curto prazo não ofereça riscos imediatos, pode agravar em sérios problemas a médio e longo prazo (PEREZ et al., 2016).

Num estudo realizado por Alves e Boog (2007) que visou caracterizar o comportamento alimentar em moradia estudantil, observou-se que 30% não realizavam desjejum, e dos que o realizavam, a maioria (67%) o fazia na moradia estudantil. No mesmo trabalho foi relatado a ingestão inadequada de frutas e leite, com 48% dos estudantes relatando que não ingeriram nenhum tipo de fruta no dia anterior à entrevista. O mesmo relato, mas dessa vez relacionado a ingestão de laticínios, foi observado em 39% dos entrevistados. Curiosamente, os entrevistados que cursavam algum tipo de pós graduação apresentaram uma discrepância significativa em relação aos graduandos, com 90% consumindo alguma porção de fruta nas últimas 24 horas. O tempo é também um fator fundamental a ser considerado, quando analisamos a dieta de estudantes. Muitos alunos moram sozinhos ou não se adaptaram muito bem à rotina universitária, sendo assim obrigados a pular refeições frequentemente, em especial, o café da manhã. Em muitos casos a ausência de uma influência familiar pode levar também ao desequilíbrio alimentar, o que é a realidade de muitos estudantes que deixam suas cidades natais para estudar em centros urbanos (BORGES e LIMA FILHO, 2004).

Nota-se, então, como certos tipos de alimentos podem ser determinantes na saúde do universitário. Dentre estes, destacam-se os alimentos industrializados, caracterizados principalmente pelo acréscimo de aditivos alimentares. Um aditivo alimentar é uma substância que potencializa características específicas de um alimento, como textura e sabor. Estes aditivos, principalmente sintéticos, muitas vezes culminam em uma dieta desequilibrada, prejudicando a pessoa a um longo prazo. Em um estudo conduzido por Naves e col. (2018), na Universidade Estadual de Goiás, 57% de estudantes do sexo masculino disseram tomar refrigerantes (Figura 2) com frequência. Este é um clássico alimento industrializado, com conservantes, corantes e um índice de açúcar muito elevado. Estudos recentes indicam a relação deste alimento com o enfraquecimento dos ossos, devido a elevada carga ácida do líquido no organismo (HONORATO et al., 2014).

Figura 2: Estudantes consumindo refrigerante e faz-foods.

Fonte: https://goo.gl/jXX3rf

Já a busca de uma alimentação saudável pode trazer não só benefícios à saúde fisiológica, como também à saúde cognitiva, essencial ao meio acadêmico. Micro e macronutrientes, especialmente ácidos graxos e vitaminas, podem ter uma função vital na redução de estresse oxidativo ao cérebro, além de regularem a produção de proteínas essenciais na formação e manutenção dos neurônios. Para tanto, o organismo precisa de nutrientes variados e em concentrações ideais, o que só pode ser provido em uma alimentação diversificada e saudável (SANT’ANA, 2018).

Além disso, é importante ressaltar a diferença entre alimentar-se e nutrir-se. Alimentar-se é o processo de assimilação dos alimentos que ingerimos, enquanto que nutrição é quando o nosso organismo recebe os nutrientes necessários para realizar seu trabalho fisiológico. É importante ressaltar a diferença, visto que muitas vezes se alimentar não é o mesmo de nutrir-se. Alguns alimentos são considerados como “nutricionalmente vazios”, pois em sua maioria fornecem apenas calorias e não vitaminas (HEIMBECHER, 2015).

Diante das dificuldades, existem algumas formas de contornar as adversidades e optar por uma alimentação barata e saudável. Uma alternativa interessante para quem busca um lanche rápido é utilizar frutas na alimentação, visto que estas possuem em sua maioria um valor nutricional elevado e baixo teor calórico. Outra opção é começar a “fazer feira” de modo rotineiro, sempre optando por alimentos in natura, como hortaliças, grãos, carnes e derivados do leite. Estes alimentos precisam de um tempo de preparo e um processamento que os tornam muitas vezes pouco práticos, mas existe uma forma simples de contornar este problema: Tirar um dia da semana para preparar todas as refeições do resto da semana e armazená-las em ambiente refrigerado. Desta forma quando surgir a necessidade, é possível alimentar-se sem maior consumo de tempo e dores de cabeça.

Diante destes fatos, torna-se clara a necessidade de uma alimentação balanceada, saudável e diversificada. Mesmo que inicialmente pareça algo difícil de ser mantido em um ambiente acadêmico, com planejamento e força de vontade é perfeitamente possível conciliar com as atividades de ensino, pesquisa e extensão.

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Referências

ALVES, H. J., BOOG, M. C. F. Comportamento alimentar em moradia estudantil: um espaço para promoção da saúde. Revista de Saúde Pública, v. 41, p. 197-204, 2007.

BORGES, C. M. & LIMA FILHO, D. O. Hábitos alimentares dos estudantes universitários: um estudo qualitativo. Cep, v. 79023, p. 041, 2004.

FEITOSA, E. P. S., DANTAS, C. A. D. O., ANDRADE-WARTHA, E. R. S., MARCELLINI, P. S. & MENDES-NETTO, R. S. Hábitos alimentares de estudantes de uma universidade pública no nordeste, Brasil Food habits of students of one public university of Northeast, Brazil. Alimentos e Nutrição Araraquara, v. 21, n. 2, p. 225-230, 2010.

GARCIA, R. W. D. Reflexos da globalização na cultura alimentar: considerações sobre as mudanças na alimentação urbana. Revista de Nutrição, 2003.

HEIMBECHER, Andressa. Você sabe a diferença entre alimentação e nutrição?, 2015. Disponível em <http://www.andressaheimbecher.com.br/voce-sabe-a-diferenca-entre-alimentacao-e-nutricao/&gt;. Acesso em 09 nov. 2018.

HONORATO, T. C., SILVA, E. B., PEREIRA, T. P., & NASCIMENTO, K. D. O. Aditivos alimentares: aplicações e toxicologia. Revista Verde de Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável, v. 8, n. 5, p. 01-11, 2014.

LÓPEZ, M. J. O. NIETO GUINDO, P., AGUDO APONTE, E., MARTÍNEZ MARTÍNEZ, F., LÓPEZ GARCÍA DE LA SERRANA, H., & LÓPEZ MARTÍNEZ, M. Evaluación nutricional de una población universitaria. Rev. Nutr. Hosp., v. 21, n. 2, p. 179-183, 2006.

MOREIRA, P. R. S., ROCHA, N. P., MILAGRES, L. C., & NOVAES, J. F. D. Análise crítica da qualidade da dieta da população brasileira segundo o Índice de Alimentação Saudável: uma revisão sistemática. Ciência & Saúde Coletiva, v. 20, p. 3907-3923, 2015.

NAVES, E. S et al. Levantamento dos hábitos alimentares e associação com o risco de câncer entre estudantes universitários.  IV Congresso de Ensino, Pesquisa e Extensão da UEG, 2018.

PEREZ, P. M. P., CASTRO, I. R. R. D., FRANCO, A. D. S., BANDONI, D. H., & WOLKOFF, D. B. Práticas alimentares de estudantes cotistas e não cotistas de uma universidade pública brasileira. Ciência & Saúde Coletiva, v. 21, p. 531-542, 2016.

RECINE, E. & RADAELLI, P. Alimentação saudável. Ministério da Saúde, 2009.

SANT’ANA, D. C., PEREIRA, J. P. C., REIS, A. P. R., & PÁDUA, S. M. V. Associação Entre Função Cognitiva E Alimentação Saudável: uma Revisão. International Journal of Nutrology, v. 11, n. S 01, p.134, 2018.

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Edição: Novembro/2018     By: Antonio Sodré; Cleiton Peña & Ivan Sobrinho.

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